O ALGARVE TAMBÉM É BRANCO.


  Para além da imagem de um Algarve cuja existência se remete para uma longa e litoral fímbria - de paradisíacos areais banhados por cálidas águas de um oceano sempre meigo e azul - existe uma outra, cuja criação e posterior transmissão tem vindo a marcar presença de forma vincada e permanente no imaginário de todos os que consigo tomaram contacto, correspondendo esta à de uma habitação totalmente coberta de branco como sendo a única imagem de uma arquitectura popular no território Algarve. 

   De facto, o discurso sobre a existência deste véu que mais se assemelha a uma alva mortalha, descendo por vezes a uma seminal e romântica ocupação do espaço por povos vindos do norte de África, cedo surgiu como catalisador de linhas de pensamento e de fazer história cuja existência, em bom escrever, ocultam a verdade que é policromaticamente mais complexa.   

   O Algarve, território de múltiplas e diversificadas paisagens incorpora em si a real riqueza de uma miríade de soluções de sentir e ocupar o espaço, das quais a habitação de branco caiada somente é uma amostra de um determinado sentir de uma determinada época, a qual, após discursos mais ou menos inflamados sobre a pureza e a tradição vingou até aos dias de hoje.

   Em uma campanha dirigida à população local, lançada em 1980 pela Comissão Regional de Turismo do Algarve existiu a “tentativa não só de restituir o Algarve à sua cor tradicional, mas até de impor o branco como a cor urbanística do Algarve” e onde foi escrito “ A nosso ver o Algarve só tem turisticamente duas cores: o azul do céu e do mar e o branco das casas.”

    A arquitectura popular produzida no Algarve, entre finais de 1800 até sensivelmente à década de 50 do passado século, para além de ter utilizado a cor em sua fachada integral, incorporou e reivindicou a sua aplicação nos elementos, formas e ornamentos que havia adoptado/apropriado. Muito para além do simples utilitarismo, quem edifica e pode, reivindica a utilização da cor destacando assim os elementos tridimensionais aplicados na fachada da habitação, tornando-a em habitação de fachada cenário em espaço comunicante para com quem a si lhe é exógeno.

   Havia, portanto, um desejo de comunicar ostensivamente, perante a rua, perante seus semelhantes, perante quem na rua passava, que a vida  lhe corria de feição e que a boa fortuna imperava sobre os proprietários.  

 Nesta breve mostra de imagens pretende-se transmitir um pouco dessa riqueza ainda tangível, cuja existência contraria uma visão se já não predominante nos discursos apresentados ainda vigente na maioria dos pessoais discursos da maior parte dos indivíduos.


Exposição de:
 
FILIPE DA PALMA
SÃO BRÁS DE ALPORTEL, 1971
FOTÓGRAFO

Localização

R. Dr. Faria e Silva n.º34 _ 8600-734 Lagos

Horários

Ter-Dom

10:00 - 18:00
Segunda-feira Fechado

Encerrado nos dias 24, 25 e 31 de Dezembro, e 1 de Janeiro.

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